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O Futuro do Leite no Ceará, por Josias Lima

O Futuro do Leite no Ceará: Onde a Sucessão Geracional Encontra a Biotecnologia

Por Josias Lima, coordenador estadual do Programa FIV Ceará da Faec

O debate econômico sobre o agronegócio brasileiro costuma orbitar em torno de grandes números e metáforas. Antônio Delfim Netto classificava o setor como a âncora cambial do País, enquanto Celso Furtado e Maria da Conceição Tavares alertavam para o risco de o setor crescer sem se desenvolver, de evoluir tecnologicamente sem fixar o homem no campo. No semiárido cearense, o desafio é fazer o jovem voltar ao campo e tornar a atividade atrativa para as próximas gerações.

A saída para superar esse obstáculo está no cocho e no laboratório. Aos 27 anos, assumi a coordenação de um projeto de transferência de embriões bovinos de leite no Ceará e logo percebi que a atuação de um jovem como eu não era uma exceção, mas um novo padrão na sucessão rural. A estrutura agrária tradicional, muitas vezes vista como estática e excludente, começava a ser chacoalhada por uma nova engrenagem: a tecnologia de precisão.

A resistência do jovem em herdar a propriedade dos pais sempre esteve relacionada à baixa rentabilidade da pecuária convencional. Mas quando introduzimos a biotecnologia da Fertilização In Vitro (FIV) e o melhoramento genético em rebanhos familiares viramos o jogo.

O jovem rural de hoje não quer apenas herdar a terra; ele quer gerenciar um negócio eficiente. Ao ver que o investimento em uma matriz geneticamente superior é capaz de multiplicar a produção de leite e elevar o retorno da atividade, esse jovem passa a enxergar o lote não como um fardo, mas como uma empresa viável. O embrião bovino deixa de ser apenas um insumo biológico e passa a ser um poderoso instrumento de sucessão familiar sustentável.

Essa transição exige o que as teorias de sistemas chamam de loops de retroalimentação positiva. O novo produtor compreende que não basta apenas produzir mais litros de leite por hectare, entende que o resíduo da pecuária intensiva precisa virar biofertilizante para o cultivo do Capiaçu ou do sorgo, que por sua vez alimentará as matrizes de alta performance, fechando um ciclo sustentável e de baixo carbono.

O uso da tecnologia é fundamental para a permanência do homem no semiárido e para inverter o fluxo do êxodo rural, transformando o interior em um polo de oportunidades capaz de atrair de volta talentos e investimentos.

Se a geração dos nossos pais e avós desbravou o sertão com base no esforço físico extremo e na busca pela subsistência, a nossa missão é pavimentar esse caminho com inteligência competitiva e ciência aplicada.

Estou convicto de que a permanência na pecuária de leite continuará sendo sustentada pelo fator cultural que a envolve. Contudo, um novo fator precisa ser incorporado a essa equação: a lucratividade sustentável, capaz de tornar a atividade economicamente atrativa para as novas gerações.

Ao coordenar um projeto de tamanho impacto, compreendi que há uma linha tênue entre a exclusão e a oportunidade que passa pelo manejo diário. A verdadeira sucessão no campo acontece quando paramos de exportar nossos jovens para as periferias urbanas e passamos a importar biotecnologia para os nossos currais. O futuro do leite no Ceará já começou e corre sobre os trilhos da inovação.