{"id":2626,"date":"2016-02-18T11:10:46","date_gmt":"2016-02-18T11:10:46","guid":{"rendered":"http:\/\/faec.org.br\/novo\/?p=2626"},"modified":"2016-02-18T11:10:46","modified_gmt":"2016-02-18T11:10:46","slug":"os-temores-do-campo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/faec.org.br\/faec\/os-temores-do-campo\/","title":{"rendered":"Os temores do campo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">JO\u00c3O MARTINS DA SILVA JUNIOR &#8211;\u00a0<strong>\u00c9 PRESIDENTE DA CONFEDERA\u00c7\u00c3O DA AGRICULTURA E PECU\u00c1RIA DO BRASIL (CNA)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ano de 2015 se encerrou com as mesmas not\u00edcias com que j\u00e1 estamos ficando acostumados: a economia retraiu-se, a infla\u00e7\u00e3o elevou-se, a ind\u00fastria encolheu e o desemprego aumentou. Nesse cen\u00e1rio desalentador, s\u00f3 a agropecu\u00e1ria seguiu crescendo, produzindo mais, exportando mais e gerando US$ 80 bilh\u00f5es de super\u00e1vit. Se as previs\u00f5es dos analistas econ\u00f4micos se confirmarem, 2016 repetir\u00e1 a mesma hist\u00f3ria. Ser\u00e1 poss\u00edvel que, numa economia em crise generalizada, um setor isolado continue se expandindo sem ser afetado pelo ambiente ao seu redor?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso s\u00f3 seria poss\u00edvel se nosso setor de produ\u00e7\u00e3o rural fosse uma esp\u00e9cie de enclave econ\u00f4mico, operando no territ\u00f3rio do Pa\u00eds, mas com a produ\u00e7\u00e3o voltada quase exclusivamente para os mercados externos. Exemplos dessa natureza podem ser encontrados em pa\u00edses produtores de petr\u00f3leo ou outros minerais, cujas cadeias produtivas t\u00eam pouca integra\u00e7\u00e3o com sua economia interna. O que se passa com a agricultura e a pecu\u00e1ria do Brasil \u00e9 muito diferente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"justify\">Apesar de sermos hoje um dos tr\u00eas maiores fornecedores de alimentos para o mundo, com presen\u00e7a dominante numa lista de mercados que inclui a soja, caf\u00e9, suco de laranja, carnes bovina, su\u00edna e de frango, a\u00e7\u00facar, algod\u00e3o, tabaco, al\u00e9m de investidas promissoras em mercados como os de milho, frutas e l\u00e1cteos, a verdade \u00e9 que a produ\u00e7\u00e3o rural brasileira \u00e9 predominantemente voltada para o mercado interno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"justify\">Al\u00e9m disso, nossa estrutura de produ\u00e7\u00e3o \u00e9 altamente diversificada, produzindo centenas de produtos exclusivamente para o consumo nacional. A produ\u00e7\u00e3o rural brasileira n\u00e3o \u00e9 um enclave exportador, mas surgiu e cresceu para atender ao mercado interno e gra\u00e7as \u00e0 sua produtividade e a seus custos competitivos exportou excedentes e conquistou os mercados mundiais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"justify\">Para que a agricultura e a pecu\u00e1ria do Brasil possam seguir crescendo \u00e9 absolutamente necess\u00e1rio que o Pa\u00eds supere a crise que est\u00e1 vivendo. Caso contr\u00e1rio, o setor tamb\u00e9m ser\u00e1 arrastado para as dificuldades que hoje atingem t\u00e3o duramente a ind\u00fastria e o setor de servi\u00e7os. Se o desemprego e o decl\u00ednio da renda familiar se mantiverem por mais tempo, o resultado natural ser\u00e1 a contra\u00e7\u00e3o do mercado interno, com press\u00e3o sobre os pre\u00e7os, em atividades cujas margens de lucro j\u00e1 s\u00e3o muito estreitas na maioria dos casos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A maior parte dos produtos da nossa agricultura \u00e9 destinada exclusivamente ao mercado dom\u00e9stico e n\u00e3o poder\u00e1 compensar a retra\u00e7\u00e3o das vendas externas com a exporta\u00e7\u00e3o. Quanto aos outros produtos com tradi\u00e7\u00e3o exportadora, o aumento dos saldos export\u00e1veis poder\u00e1 pressionar ainda mais os pre\u00e7os externos, que j\u00e1 est\u00e3o em trajet\u00f3ria declinante faz algum tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um poss\u00edvel colapso de algumas atividades produtivas atingir\u00e1 especialmente os produtores mais vulner\u00e1veis, desorganizando estruturas produtivas longamente constru\u00eddas, com inevit\u00e1veis reflexos sociais. Como \u00e9 uma atividade sazonal, dependente do curso das esta\u00e7\u00f5es, a agropecu\u00e1ria tem pouca capacidade de adapta\u00e7\u00e3o aos ciclos econ\u00f4micos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se a crise brasileira nos atemoriza quanto \u00e0 demanda, a hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 menos assustadora em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 oferta. A moderna agropecu\u00e1ria do Pa\u00eds, que teve in\u00edcio nos anos 70 do s\u00e9culo passado, \u00e9 um empreendimento essencialmente privado. O Estado teve sua parte, em especial na produ\u00e7\u00e3o do conhecimento cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico, por meio da excel\u00eancia singular de nossas universidades rurais e da experi\u00eancia pioneira da Embrapa, bem como na montagem de um sistema eficiente de cr\u00e9dito rural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi a iniciativa privada que transformou os campos do sul do Brasil e ocupou os vastos cerrados improdutivos que predominavam em grande parte de nosso territ\u00f3rio. Foi trabalho de pioneiros, portadores de experi\u00eancia profissional na produ\u00e7\u00e3o e capazes de empreender e assumir riscos tremendos. Povoaram grandes vazios, sem os confortos das cidades e sem a menor infraestrutura, numa aventura pessoal que merece justo registro na Hist\u00f3ria moderna do Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"justify\">A efici\u00eancia do setor privado excedeu, em muito, a compet\u00eancia do Estado brasileiro. Assim, os resultados de grande parte da produ\u00e7\u00e3o s\u00e3o afetados pela car\u00eancia quase absoluta de infraestrutura. N\u00e3o temos rodovias, ferrovias, hidrovias ou portos para escoar a produ\u00e7\u00e3o a custos minimamente razo\u00e1veis. Os custos log\u00edsticos recaem sobre o produtor e o consumidor dom\u00e9stico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"justify\">Por mais que os produtores aumentem sua produtividade, com pesados investimentos dentro das fazendas, seus lucros est\u00e3o cada vez menores e os pre\u00e7os aos consumidores s\u00e3o maiores do que poderiam ser. O Estado brasileiro encontra-se, h\u00e1 muito, em situa\u00e7\u00e3o quase falimentar e n\u00e3o tem sequer uma fra\u00e7\u00e3o dos recursos necess\u00e1rios aos investimentos que precisam ser feitos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"justify\">Esta \u00e9 uma realidade que n\u00e3o podemos disfar\u00e7ar com a ret\u00f3rica f\u00fatil das ideologias pol\u00edticas. S\u00f3 o setor privado pode construir e operar a infraestrutura que precisamos. Mas a incompet\u00eancia dos \u00f3rg\u00e3os estatais, capturados pela baixa pol\u00edtica, e a avers\u00e3o ideol\u00f3gica ao capitalismo e ao setor privado ou ret\u00eam mais encargos do que ele pode suportar ou impedem que os processos de concess\u00e3o cheguem a termo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"justify\">Enquanto os pre\u00e7os externos estavam anormalmente elevados, todas as defici\u00eancias puderam ser ignoradas. Agora que a realidade bate \u00e0 nossa porta, quem vai pagar o pre\u00e7o da imprevid\u00eancia? Mais uma vez, n\u00e3o ser\u00e1 o Estado abstrato, mas os produtores e consumidores, gente de carne e osso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"justify\">At\u00e9 agora, a produ\u00e7\u00e3o rural tem sobrevivido \u00e0 crise geral do Estado e da economia brasileira. Infelizmente, nosso sentimento \u00e9 que esta crise vai afetar a agricultura e a pecu\u00e1ria, se durar mais tempo. A paisagem pol\u00edtica, por\u00e9m, n\u00e3o nos deixa margem para muita esperan\u00e7a. O poder pol\u00edtico, entre n\u00f3s, parece aspirar apenas \u00e0 sua pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia, sem mais nenhum prop\u00f3sito de resolver os problemas verdadeiros do Pa\u00eds e das pessoas. \u00c9 o que nos d\u00e1 raz\u00e3o de sobra para temer pelo futuro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>JO\u00c3O MARTINS DA SILVA JUNIOR &#8211;\u00a0\u00c9 PRESIDENTE DA CONFEDERA\u00c7\u00c3O DA AGRICULTURA E PECU\u00c1RIA DO BRASIL (CNA) O ano de 2015 se encerrou com as mesmas not\u00edcias com que j\u00e1 estamos ficando acostumados: a economia retraiu-se, a infla\u00e7\u00e3o elevou-se, a ind\u00fastria encolheu e o desemprego aumentou. 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